agosto 29, 2008

A Santa Suja

Espera o peregrino Romeu
Beijar-lhe as mãos
Perfumadas de lótus e rosas
Ornada de ouro e velas
Espera o viajante chegar

Ajoelhado e a olhar pra ela
Como que pra uma estrela a desejar
Que mais próxima estivesse
“Santa, vinde meus olhos alumiar!”

Não ores com tanto afinco
Romeu, latim vais desperdiçar!
A santa é suja e despreza
Todo o teu suplicar!

Tem nas mãos a morte,
a miséria e o mendigar
Traz nas rosas a mentira
E o perfume enxofre vai virar!

agosto 24, 2008

Indicação

Leiam isso, por favor.
Abracem alguém hoje, por favor.
Amem sempre, por favor.
Sonhem em cada segundo, eu lhes peço.

http://retalhossemtempo.blogspot.com/

Meninos

Ah, meninos!
Gosto das suas cinturas
Sejam elas como forem.
Minto, gosto das suas peles,
Sejam elas da cor que forem.
O que me importa é o cheiro,
Aquele cheiro de "te quero".

Gosto das suas mãos grandes
E dedos finos de pianista,
Quando não daquelas com nós nos dedos,
Nós que eu gosto de morder.
Nós que se formam pela mania de estalar.

As mãos estalam porque são nervosos, neuróticos
Controladores, possessivos, porque amam demais.
Alguns amam demais a si mesmos.

Ah, mas eu gosto quando sorriem!
Ah, quando sorriem...
Quando brincam feito moleques,
Quando correm desengonçados
E falam besteira, só por sorrir.
Eu amo os meninos quando sorriem.

E me apiedo quando choram,
E gozo quando sofrem,
Porque sou doente...
Porque prefiro vê-los assim,
Vulneráveis e cansados,
São mais fáceis de alcançar...

Ah, meninos...

agosto 21, 2008

O engarrafamento

Eram 18:00h e Marco saía do trabalho. Estava exausto. Sentou no ônibus, sem figuras de linguagem que expressassem a fadiga.
Colocou o MP3 no ouvido e fechou os olhos.
O ônibus passou da Praça XI com sofreguidão. O trânsito estava absurdamente lento. Passado o prédio da Univercidade, melhorou e o ônibus seguia o fluxo. Na altura de Vila Isabel, parou tudo novamente. Os ônibus, carros e vans enfileiravam-se, tornando seus passageiros mais íntimos visualmente do que talvez gostariam.
Tocava Lulu Santos. Ele cantarolava dentro da sua cabeça, tranquilamente, até que virou o rosto e no ônibus ao lado, quase vazio, viu sentado uma loirinha magrinha e delicada, ajeitando fones de ouvido, deliciosamente apertadinha em um vestidinho de bolinhas cintado. Ela abria e fechava a boca, como que cantando pra si mesma.
Ouvindo na cabeça a sua música, distinguia na boca dela as mesmas palavras:

“ Eu gosto tanto de vocẽ
Que até prefiro esconder
Deixa assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor intenção de acontecer.”

Quando a loirinha se virou, ele cantarolava a parte do “pode até parecer fraqueza”.Ela sorriu.
Ela sorriu!, ele pensou consigo mesmo, sentindo-se sortudo.
Ele sorriu e disse o “pois que seja fraqueza, então.”
Ela riu,
Ele puxou de um caderno e mostrou pra ela, escrito: “Temos várias coisas em comum!”
Ela fez uma cara de interrogação.
Ele virou a página.
“Estamos presos no mesmo engarrafamento.”
Ela fez que sim,
“ E gostamos da mesma música.”
Ela sorriu de novo.
“Podíamos ter mais uma coisa em comum.”
Ela fez uma carinha safada de questionamento, outra vez, sorrindo mais dessa vez.
“Podíamos ambos saber o número do seu telefone!”
Ela riu. Ele quase podia ouví-la gargalhar.
Com os dedinhos, ela mostrou cada número, enquanto ele anotava no caderno.
Ele mandou um SMS.
“Em casa, te ligo, e canto as músicas do Lulu no seu ouvido.”
=) , ela respondeu.
Rá, ele pensou.

agosto 18, 2008

A fama é um espelho de duas faces.

Mal chegou na Pça Tiradentes, arrancou o casaco. O inverno carioca é ameno demais, pensou.Imagino como deve estar Friburgo a essa hora.

Foi até o Largo da Carioca e encontrou uma amiga em uma loja de sucos.

Maryeva era puta e trabalhava na Atlântica pra um cara que tinha inúmeros sobrados na Lapa e alguns apartamentos também. Um deles, Maryeva dividia com uma colega, de quem Alice não gostava, sem saber o motivo. Seu santo só não batia com o dela.

Na dúvida, sempre confiava na sua intuição. Foi assim que se safou de muita roubada, então, era melhor não bulir com aquela lá.

Maryeva bebia um suco de morango, sua fruta favorita, enquanto contava do Arnaldo, o senhorio e patrão:

“O filho da puta pegou todo o meu faturamento de ontem, sem nem perguntar nada, porque eu atrasei o pagamento do aluguel, e ainda me disse – bebeu um gole do suco e resfolegou, indignada – que tava me fazendo um favor, por me cobrar tão barato...Bicha enrustida do caralho.” , disse ela baixinho, o que não evitou que um cara de meia idade e engravatado lançasse um olhar de desaprovação em direção a Maryeva, seguido de um olhar de análise ao seu corpo violão.

Alice reparou no coroa, o que chamou a atenção de Maryeva, que olhou pra trás e ao notar que o homem a olhava com desejo entubado com sanduíche seco, sorriu safada e maliciosa como uma vaga do mar.

O homem engoliu o sanduíche inteiro, como que envergonhado e com pressa, sentindo o peso de uma aliança no dedo anular e o olhar de questionamernto dos outros convivas da loja de sucos.

“Trouxa.”

Alice sorriu.

“Escuta, vou lá em Laranjeiras. Uma guria me ligou dizendo que ouviu falar de mim e quer me contratar.”

Maryeva ergueu uma sobrancelha entre um gole e outro. “Tá ficando famosa tu, heim?”, gargalhou de um jeito gostoso, mais gostoso do que ela própria.

“É, não sei se isso é tão bom.”, disse Alice, com um olhar preocupado e a voz baixa.

“Porra, garota. Melhor que passar bagulho, não?”

“Pode ser. Fica com a minha chave -Alice mudou de tom – e passa lá mais tarde. Eu preciso que você dê comida pro Salsicha.”

“Uhum, fica tranquila.”

Chegando à Rua Laranjeiras, Alice procurou o número dado pela garota que ligou.”Eu preciso que você resolva um problema pra mim, uma piranha qualquer, vagabunda mesmo.Quero que você se livre dela.”

“Eu só me dou ao trabalho se a criatura não presta mesmo, entendeu?”

“Sim.Te espero às três.”

A garota era bonita, se vestia como uma menina comum da zona sul, como que pronta pra ir à praia pra um passeio.Foi o que fizeram, deram um passeio pelas ruas do bairro.

Nesse interim, Luciana, como se chamava, explicou que tinha um namorado há dois anos, que era igual a todos os outros homens.Era dedicado, e talvez a amasse, mas dava suas escapadas. Mas a garota dessa vez parecia ter cativado o rapaz além do aceitável, pois ela estava se sentindo trocada.E estava sendo trocada.Ele já deixava de estar com ela pra estar com a outra,e isso durava meses.

Luciana precisava saber de quem se tratava, e a queria longe. Talvez uma boa surra resolveria a situação.

“Olha só, não sou dessas coisas. Não gosto de ver ninguém sofrendo. E me recuso a gastar mais de uma bala.”

Luciana se calou.

“Pensa bem. Não é isso que vocẽ quer.”

“Não!”, Luciana deu um salto, “É sim, quero me livrar dela. Não suporto a idéia de ele amar alguém mais do que eu.Isso é impossível, inaceitável, entende?”

Ela tem apenas 19 anos, pensou Alice.Mas tem dinheiro,E eu preciso comprar ração pra gato.

“Metade agora, metade depois que eu descobrir quem é a outra.Isso se vocẽ quiser continuar com isso.”

Alice perscrutou a menina, que devolveu um olhar gélido.

“Fechado.”

Refletidos

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Gaúcha de nascimento, carioca de coração. Advogada, escritora incubada e apaixonada por cultura.