junho 05, 2011

Da poesia imortal

Mesmo quando o tempo corre
a poesia ocorre.
Pois se ela não acontece
quem é que me socorre?

Se a poesia não ocorre
uma parte de mim morre
e o tempo roe roe roe
as cordas que sustentam
as pontes que levam à felicidade,
que me levam à paz.

Mesmo o tempo sendo este roedor voraz,
paraliso o ratinho
a fim de dispensá-lo a favor da letra,
que no papel também corre.

Porque mesmo quando o rato corre
e foge desesperado no horizonte,
mesmo quando o tempo corre
levando do poeta a vida,
nem assim a poesia morre.

maio 25, 2011

Estações

É no pinga-pinga da chuva
que traço as aquarelas da minha primavera.

Foi com o cinzento da névoa
que pintei tantas telas,
implorando por um raio de sol!

E é no frêmito escaldante
de um eterno veranico de maio
que hoje vivo contigo este amor impudico.

Vila Valqueire, 30 de março de 2010.

maio 07, 2011

querência



É nas palavras simples
e em versos sussurrados
que encontro serenidade
para meu coração cansado.

Já não posso mais com rimas
esdrúxulas, estruturadas!

Desejo a paz do cricrilar dos grilos
e de perpassar o campo de uma só passada!

Foto: flickr - xuxudrops

abril 08, 2011

Wellington, o novo Macunaíma

Este é um momento de dor para todos nós brasileiros, pois todos nós ou temos filhos ou irmãos, sobrinhos e primos que estudam e estão sob proteção do Estado quando frequentam suas escolas (públicas). Nunca desconfiamos que neste ambiente nossas crianças poderão estar em perigo. Porém, não contamos também que um colega de classe tímido, introvertido e vítima de brincadeirinhas ocasionais dos outros alunos seja alguém que precisa de atenção, carinho e um ombro amigo. Não imaginamos que essa pessoa, por falta de carinho e atenção, um dia alcance um nível de stress psicológico tão grande que deixa de ser um ser humano capaz de empatia com o sofrimento de outras pessoas.
Quando uma pessoa com este perfil comete uma loucura como essa, não devemos alimentar sentimentos de ódio e vingança, apenas de piedade por este espírito perturbado, a quem provavelmente faltou a compreensão do amor e do carinho que sua família lhe deu durante sua formação.
É lamentável quando uma pessoa sem amor distribui a desgraça dentre pessoas que se amavam, como é Wellington fez com essas crianças e seus pais, vizinhos, amigos e parentes. Pior ainda e incompreensível quando é uma pessoa que teve o amor de seus familiares.
Às famílias vítimas dos ideais errôneos desse menino - menino porque quantos de nós temos filhos de 20 e poucos anos e ainda os consideramos meninos - merecem todo tipo de oração, solidadariedade, apoio e vibrações positivas pra que possam seguir suas vidas APESAR da tragédia.
Embora à custa de vidas inocentes, vejo que Wellington agora é uma espécie de anti-herói. Não por que ele é o vilão, mas porque ele é o herói ao avesso. Há quanto tempo nossas autoridades e até mesmo nós, a sociedade, não nos insurgíamos quanto à falta de segurança nas nossas escolas, contra a qualidade de ensino precário, quanto às condições terríveis de trabalho de nossos professores, quanto a atenção dada ao futuro de nosso país, as crianças?
Desde quando a sociedade discute o problema do bullying seriamente?
Esta loucura que Wellington Pereira de Menezes cometeu pode ter sido o gatilho para que venhamos a levar a questão da educação e do tratamento oferecido por nós, sociedade e iniciativa privada, e pelo Estado à questão da educação em lato sensu mais a sério, com a seriedade, responsablidade e o compromisso que merece.
Vai ver a gente precisava de um chacolhão pra entender que nossas cranças estão abandonadas à própria sorte! Será que não é esse o momento de resgatá-las?
Se pudermos repensar e debater todas essas questões, procurar soluções e cobrar atitudes de nossos governantes, estas crianças serão mártires, mas Wellington será um marco.
No final, a resposta é uma só: AMOR.

abril 06, 2011

A verdade é que...

mesmo que nasça escrevendo,
cresça escrevendo,
se reproduza escrevendo,
nunca se desvenda
a totalidade do poeta.

A graça de sua doação
reside no mistério
de não ser total.

Será?

Foto: Débora Gauziski - http://migre.me/4EYcc

fevereiro 27, 2011

conexão

Ele não viu as minhas mensagens.
Nossos celulares estavam em área de sombra.

Eu não vi seus sinais.
Meu coração estava fora de área.

janeiro 15, 2011

Oriente ao Ocidente

Arte por Aline Molinari - http://migre.me/3FwiX



Eia! Maestrina dos ventos mongóis,
rainha das monções!
Dona dos lufares de cores
âmbar, púrpura e encarnada
que sedimenta a ruína sede
da arte orquestrada!

Embuída das notas psicotrópicas,
nascedouro das pinceladas da sanidade,
ninho da aurora dos retratos da minha cidade,
que é vossa, que é nossa,
fossa cidade.

Aquela que governa, desvairadamente serena
as palmeiras, cantilenas dos trópicos.
Governa, lacera e macera
em teu ventre bojudo de amor
e sorrisos cheios de ardil
a fome e a dor lancinante sem nome
máquina de amar sem quê,
quando, nem onde
Pra sempre tu,
artista do meu Brasil!

dezembro 30, 2010

Cavalo d'água

Foto: Cavalos (arquivo pessoal)

A chuva trota elegante na calçada
até o momento em que desatina
perde rumo e estribeira
lava rua e leva carro!

Quando estanca a madrugada
deixa o povo aparvalhado
se perguntando onde esteve 
o cavalo que andara trotado. 

novembro 27, 2010

Feriado

Hoje o pastel na feira está mais barato
porque a filha do pasteleiro se formou
e o pasteleiro, feliz, barateou o ganha-pão.
E o tomate e a galinha,
o preço deles também abaixou.

Hoje é véspera de feriado
e as mães cozinham em casa.
E os pais que ainda estão lá
assistem futebol.

Hoje não tem ninguém pra pagar.
Nem leiteiro, padeiro, peixeiro, motoqueiro,
e a gente refestela no sofá
enquanto os moleques soltam pipa na rua.

Hoje a gente não trabalha,
mal sai de casa.
No mais, só telefona 
pra saber se está tudo bem.

É que amanhã não se sabe como será.

Já avisou que amanhã não tem feira?
Que o mercado nem o banco abrem?
Que os moleques não saem pra soltar pipa,
nem pra estudar?

Amanhã tem visita no morro.
Quem nunca se importou
se os meninos vão à escola,
se as mães tem frango na mesa,
se os pais amanhã trabalham,
amanhã eles vem visitar.

Amanhã a gente não trabalha,
mal sai de casa.
No mais, só telefona 
pra saber se está tudo bem.

Amanhã os meninos não soltam pipa.

Amanhã tem visita no morro.

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2010. 05:48 AM.

setembro 28, 2010

O susto do primeiro adeus

Foi então a primeira vez
Que eu te disse adeus
Enquanto você fingia,
Mais uma vez,
Dizer adeus ao teu amor.

Que assustador!

Que temeridade me ver
Dando enfim um passo
Na direção oposta a você.

Mas é que já vi essa mão
Nesse movimento trôpego
E sem convicção
Dos que fingem se amar
Mas que no fundo não amam ninguém.

E isso, meus amigos, consegue ser ainda mais assustador do que um primeiro adeus.

setembro 21, 2010

Pra compreender a dor

E um dia você percebe que tudo não passou de uma válvula de escape pra insegurança.

Era tão insuportável sentir assim, ser assim! Impotente.

Ao se dar conta de que existem acontecimentos na vida da gente que são incontroláveis tem gente que perde o domínio de si mesmo e se deixa enrodilhar no turbilhão de idéias e sentimentos que advém da ausência de controle.

A inevitabilidade do sentir é tão excruciante quanto o próprio sentir!

O sofrimento antecipado que vem quando se percebe que no meio da estrada que passamos a trilhar estará um trecho escuro, incerto, de terreno instável e clima repleto de intempéries consegue transformar o trecho anterior ainda mais habitado de monstros noturnos do que o seguinte.

Sentindo-se incapaz de seguir, nos vestimos com mais casacos, uma capa de chuva, botas, fechamos os punhos em defesa.

Mas o que fazem aqueles que não carregam nada, que saem de casa sem lenço, sem documento, sem amor-próprio, sem instinto de sobrevivência, sem confiança?

A gente luta com as armas que tem ou foge pra lutar mais um dia.

E um dia você percebe que as drogas e a bebida evitam que você sinta a ansiedade, o medo e a dor, mas não levam nada disso embora.

No dia seguinte, nos damos conta de que aquela pessoa que acordou ao seu lado não vai te dar conforto nem amor, é só mais alguém com quem você se divertiu e não vai te trazer nada de novo nem nada demais.

Depois é que a gente vê que não adianta brigar consigo mesmo nem com outras pessoas.

Que não foi a vida que virou naquilo. É aquilo que faz parte da sua realidade agora, mas é só agora! Se você se permitir, vai passar.

Se você se permitir sentir, como uma represa quebrada que aos poucos se reconstrói, um dia a água para de vazar, a ferida fecha e a cicatriz deixa de doer. E o que era futuro vira passado.

Não adianta sofrer porque a dor vai chegar.

Não adianta enlouquecer porque não vai dar pra evitar.

E quando ela chegar e te abraçar, aceita.

Aceita porque cada um tem a companheira de que precisa. E não é que a gente mereça sofrer, mas às vezes a gente faz por onde sem perceber. A gente se sabota sem querer.

E vai passar! Se não há mais nada em que acreditar, acredita nisso:

Vai passar.

agosto 04, 2010

Dividida


Um me liga que está com saudade,
o outro na cama me grita que também sente minha falta...
E eu, meu Deus, não tenho saudade de mim?

agosto 02, 2010

Equação

29 dez 2009

 

Não é que seja pequeno

o que se sente.

Mas é que eu não sou nada

sem o sentimento do outro.

 

Meu sentimento é grande,

mas fica muito vazio e sozinho

sem o sinal de mais e o teu coração ao lado.

julho 27, 2010

Sujeito vendado

Não sabe do que passa fora

aquele que não olha pra dentro.

Quem não se sabe

não é capaz de conhecer a dor alheia.

 

É digno de pena aquele

que nunca toma coragem

de lançar olhos ao seu redor.

 

Se não sabe da dor alheia

nem tenta sequer amenizar

a necessidade de quem quer que seja.

 

E jamais tomará consciência

de como sua própria dor é pequena.

 

29 dez 2009

julho 14, 2010

Que dia é hoje?

Os pombos realizam conferência

num canto da praça,

em volta de um pedaço de pão.

 

As senhorinhas da melhor idade

alongam e exercitam

seus velhos músculos...

E as crianças,

que na vida ainda estão em seu alvorescer,

São, então, só risada e contradição!

 

E é uma pena que meu ônibus tenha chegado

e eu não possa mais ficar aqui,

fingindo que é domingo.

 

#férias

 

30/03/2010

julho 12, 2010

Intendente Car Street

Que dilema!

Se eu compro um carro,

ganho uma bola.

 

Mas acho que tô na rua errada,

na loja errada!

Porque hoje eu não queria

ter que dirigir até o trabalho.

 

Hoje, eu queria só a bola,

um marzão azul na minha frente

e um espeto de queijo coalho.

 

Que preguiça!

 

#férias

 

30 mar 2010

 

Fernanda O. de Oliveira

  fernandaoxigenio@gmail.com

 

julho 07, 2010

Pedido de Marighela

20 dez 2009

 

Alimento para os que tem fome;

Chuva e rios para os que tem sede;

Alento para os pés cansados.

 

Poesia, para os sonhadores!

 

Dinheiro aos gananciosos.

Vitória aos ambiciosos.

Batalhas aos guerreiros

e ideologias aos filósofos.

 

Dai ao povo o que é do povo

e a Justiça para todos!

junho 30, 2010

Misenscène

Ele me convidou pra comemorarmos uma data imaginária, pra encenar em um palco que é só nosso os atos da peça que nós escrevemos enquanto engolimos as pílulas do cotidiano, na coxia.



As cortinas se abaixam no nosso teatro e a plateia se resume às sombras esmaecidas, à penumbra que o nosso texto exige.



Nossa peça é colaborativa e embora existam inúmeros personagens, o número de atores é reduzido. Somos protagonistas e elenco de apoio, tudo ao mesmo tempo, e só assim é que nossos personagens brilham.



E é quando eu tiro meus oclinhos de professorinha pra ensinar-lhe uma fala ou uma nova técnica que ele se recosta, assiste a meu show, bate palmas em fulgor total!



As cortinas se levantam.



Engolimos mais daquelas pílulas, que embora sejam feitas de rotina, são cheias de pequenas aventuras e risos na madrugada.


"Pra nós dois, sair de casa já é se aventurar..."

#nouveau

#naradiola #navitrola kings of leon_i want you

maio 27, 2010

Post-it

Antes que se acabe o dia
me lembre de apenas uma coisa!
Mesmo que tudo se atribule,
não posso esquecer da poesia.

Pois sem a sua presença,
os dias perdem sua leveza de nuvem
e o tempo é rijo feito pedra.

Sem uma ou duas palavrinhas de amor
A Terra fica como que preenchida
de líquido viscoso e denso
e fica tão difícil de se abraçar!

abril 17, 2010

tarde de sesta

nessa janela acortinada de lusco-fusco
pintada de cânticos entoados
pelos grilos em seresta,
nada é mais alegre, meu amor
que teu sorriso, projetado do meu travesseiro.

Refletidos