agosto 18, 2008

A fama é um espelho de duas faces.

Mal chegou na Pça Tiradentes, arrancou o casaco. O inverno carioca é ameno demais, pensou.Imagino como deve estar Friburgo a essa hora.

Foi até o Largo da Carioca e encontrou uma amiga em uma loja de sucos.

Maryeva era puta e trabalhava na Atlântica pra um cara que tinha inúmeros sobrados na Lapa e alguns apartamentos também. Um deles, Maryeva dividia com uma colega, de quem Alice não gostava, sem saber o motivo. Seu santo só não batia com o dela.

Na dúvida, sempre confiava na sua intuição. Foi assim que se safou de muita roubada, então, era melhor não bulir com aquela lá.

Maryeva bebia um suco de morango, sua fruta favorita, enquanto contava do Arnaldo, o senhorio e patrão:

“O filho da puta pegou todo o meu faturamento de ontem, sem nem perguntar nada, porque eu atrasei o pagamento do aluguel, e ainda me disse – bebeu um gole do suco e resfolegou, indignada – que tava me fazendo um favor, por me cobrar tão barato...Bicha enrustida do caralho.” , disse ela baixinho, o que não evitou que um cara de meia idade e engravatado lançasse um olhar de desaprovação em direção a Maryeva, seguido de um olhar de análise ao seu corpo violão.

Alice reparou no coroa, o que chamou a atenção de Maryeva, que olhou pra trás e ao notar que o homem a olhava com desejo entubado com sanduíche seco, sorriu safada e maliciosa como uma vaga do mar.

O homem engoliu o sanduíche inteiro, como que envergonhado e com pressa, sentindo o peso de uma aliança no dedo anular e o olhar de questionamernto dos outros convivas da loja de sucos.

“Trouxa.”

Alice sorriu.

“Escuta, vou lá em Laranjeiras. Uma guria me ligou dizendo que ouviu falar de mim e quer me contratar.”

Maryeva ergueu uma sobrancelha entre um gole e outro. “Tá ficando famosa tu, heim?”, gargalhou de um jeito gostoso, mais gostoso do que ela própria.

“É, não sei se isso é tão bom.”, disse Alice, com um olhar preocupado e a voz baixa.

“Porra, garota. Melhor que passar bagulho, não?”

“Pode ser. Fica com a minha chave -Alice mudou de tom – e passa lá mais tarde. Eu preciso que você dê comida pro Salsicha.”

“Uhum, fica tranquila.”

Chegando à Rua Laranjeiras, Alice procurou o número dado pela garota que ligou.”Eu preciso que você resolva um problema pra mim, uma piranha qualquer, vagabunda mesmo.Quero que você se livre dela.”

“Eu só me dou ao trabalho se a criatura não presta mesmo, entendeu?”

“Sim.Te espero às três.”

A garota era bonita, se vestia como uma menina comum da zona sul, como que pronta pra ir à praia pra um passeio.Foi o que fizeram, deram um passeio pelas ruas do bairro.

Nesse interim, Luciana, como se chamava, explicou que tinha um namorado há dois anos, que era igual a todos os outros homens.Era dedicado, e talvez a amasse, mas dava suas escapadas. Mas a garota dessa vez parecia ter cativado o rapaz além do aceitável, pois ela estava se sentindo trocada.E estava sendo trocada.Ele já deixava de estar com ela pra estar com a outra,e isso durava meses.

Luciana precisava saber de quem se tratava, e a queria longe. Talvez uma boa surra resolveria a situação.

“Olha só, não sou dessas coisas. Não gosto de ver ninguém sofrendo. E me recuso a gastar mais de uma bala.”

Luciana se calou.

“Pensa bem. Não é isso que vocẽ quer.”

“Não!”, Luciana deu um salto, “É sim, quero me livrar dela. Não suporto a idéia de ele amar alguém mais do que eu.Isso é impossível, inaceitável, entende?”

Ela tem apenas 19 anos, pensou Alice.Mas tem dinheiro,E eu preciso comprar ração pra gato.

“Metade agora, metade depois que eu descobrir quem é a outra.Isso se vocẽ quiser continuar com isso.”

Alice perscrutou a menina, que devolveu um olhar gélido.

“Fechado.”

Um comentário:

Adrielly Soares disse...

Caraa, eu adoreiii seu conto.
Me lembra Veríssimo e eu adoro Veríssimo. Tem humor nele e isso é tão gostoso de se ler.
Adoro quando você escreve contos.
:*

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Gaúcha de nascimento, carioca de coração. Advogada, escritora incubada e apaixonada por cultura.