agosto 21, 2008

O engarrafamento

Eram 18:00h e Marco saía do trabalho. Estava exausto. Sentou no ônibus, sem figuras de linguagem que expressassem a fadiga.
Colocou o MP3 no ouvido e fechou os olhos.
O ônibus passou da Praça XI com sofreguidão. O trânsito estava absurdamente lento. Passado o prédio da Univercidade, melhorou e o ônibus seguia o fluxo. Na altura de Vila Isabel, parou tudo novamente. Os ônibus, carros e vans enfileiravam-se, tornando seus passageiros mais íntimos visualmente do que talvez gostariam.
Tocava Lulu Santos. Ele cantarolava dentro da sua cabeça, tranquilamente, até que virou o rosto e no ônibus ao lado, quase vazio, viu sentado uma loirinha magrinha e delicada, ajeitando fones de ouvido, deliciosamente apertadinha em um vestidinho de bolinhas cintado. Ela abria e fechava a boca, como que cantando pra si mesma.
Ouvindo na cabeça a sua música, distinguia na boca dela as mesmas palavras:

“ Eu gosto tanto de vocẽ
Que até prefiro esconder
Deixa assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor intenção de acontecer.”

Quando a loirinha se virou, ele cantarolava a parte do “pode até parecer fraqueza”.Ela sorriu.
Ela sorriu!, ele pensou consigo mesmo, sentindo-se sortudo.
Ele sorriu e disse o “pois que seja fraqueza, então.”
Ela riu,
Ele puxou de um caderno e mostrou pra ela, escrito: “Temos várias coisas em comum!”
Ela fez uma cara de interrogação.
Ele virou a página.
“Estamos presos no mesmo engarrafamento.”
Ela fez que sim,
“ E gostamos da mesma música.”
Ela sorriu de novo.
“Podíamos ter mais uma coisa em comum.”
Ela fez uma carinha safada de questionamento, outra vez, sorrindo mais dessa vez.
“Podíamos ambos saber o número do seu telefone!”
Ela riu. Ele quase podia ouví-la gargalhar.
Com os dedinhos, ela mostrou cada número, enquanto ele anotava no caderno.
Ele mandou um SMS.
“Em casa, te ligo, e canto as músicas do Lulu no seu ouvido.”
=) , ela respondeu.
Rá, ele pensou.

Um comentário:

Iara Luna. disse...

Eu sempre me esqueço de comentar que adorei ler esse diálogo.

=) Me sinto sempre leve ao ter leituras assim...leves!

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Gaúcha de nascimento, carioca de coração. Advogada, escritora incubada e apaixonada por cultura.